Não cabe tudo. Ótimo.
Você faz as malas para um mês. As alforjas comportam 30 litros. Faça as contas.
A primeira vez que se faz as malas termina sempre igual: tudo dentro, moto quase não anda, você não sabe por onde começar a cortar. A segunda vez é melhor. Na terceira vez você faz as malas em uma hora.
A viagem te força a ter clareza. O que você realmente precisa? O que você só quer ter? Essa pergunta se responde na estrada – geralmente depois de três dias, quando percebe que não abriu aquela moletom volumosa nenhuma vez.
Esta lista tem como base o que se usa de fato em viagens como o Pamir Highway – 15 dias, do Quirguistão ao Tajiquistão, passes de até 4.650 metros.
Roupa: o sistema de camadas que funciona de verdade
Uma jaqueta de moto com protetor e membrana. Um fleece de lã merino. Uma camiseta de manga longa fina. Esse é o seu sistema de três camadas, e ele funciona de zero a 30 graus.
Três pares de roupa íntima técnica. Duas calças – uma para andar, uma para o fim do dia. Botas resistentes que também sirvam para caminhar. Dois pares de luvas: verão e inverno. Nos Alpes a diferença entre as 9h da manhã e as 14h é maior do que você imagina.
O que você não precisa: três jeans, uma camisa “de saída” que nunca vai usar, e a pluma grossa. Substitua esta última por um colete fino de Primaloft. Mesmo peso, um terço do volume.
Merino seca durante a noite. Roupa técnica sintética também. Algodão não seca. Você vai perceber na primeira chuva.

Ferramentas: o pequeno salvamento na beira da estrada
Um kit de remendo de pneu. Esse é o mais importante. Ponto final.
Além disso: jogo de chaves allen no tamanho da sua moto. Alicate de bico. Abracaçadeiras em três tamanhos. Fita isolante. Fusivéis sobressalentes. Óleo de corrente (frasco pequeno). Um compressor ou cartuchos de CO2.
O que não precisa levar: uma caixa de ferramentas completa. Se você estiver em algum lugar do mundo com um problema que não resolve com uma chave de 17 e um martelo, também não vai resolver com o resto das ferramentas. Nesse caso você precisa de ajuda local – e ela aparece em quase qualquer vilarejo mais rápido do que você imagina.
Um cabo reserva para carregar o celular. Parece trivial. É crítico quando o seu GPS é o celular.

Documentos e dinheiro: a parte subestimada
Passaporte. Carteira de habilitação internacional. Documentos do veículo. Seguro verde ou seguro local – conforme o país. Isso é o mínimo. Sem esses quatro itens você não vai longe.
Cópias de tudo – guardadas separadamente. Uma foto no celular não basta. Algumas fronteiras não aceitam documentos digitais, e algumas não têm energia para acender a sua tela.
Dinheiro: cartão de crédito, cartão de débito, dinheiro vivo. Nunca tudo no mesmo lugar. Notas pequenas em moeda local ajudam em mercados e postos menores. Na Ásia Central ainda se paga às vezes com dólar. Perguntar nunca faz mal.
Importante: um caderninho com os números do seu seguro, da embaixada brasileira e de um contato de emergência em casa. Papel não morre quando a bateria acaba.
O que sempre esquece – e faz falta
Protetor solar. Parece banal. No Pamir com 4.000 metros de altitude e atmósfera fina você queima em duas horas. Seriamente.
Band-aids para bolhas. Etapas longas aquecem os pés. Botas que eram confortáveis em casa não vão ser depois de 400 km.
Kit básico de primeiros socorros: curativos, antisséptico, paracetamol, Imodium. Problemas intestinais acontecem. Em países onde a água é diferente do que estamos acostumados, acontecem com frequência.
Sacos zip-lock em vários tamanhos. Para roupa molhada, para eletrônicos na chuva, para restos de mercado. Não pesam nada. Servem para tudo.
E um sarong ou tecido grande: protetor solar, substituto de saco de dormir em noites quentes, toalha de piquenique, biombo. Esse único pedaço de tecido sobreviveu em toda viagem longa.
O que deixar em casa – e por quê
Notebook: pesado demais, preocupação demais, utilidade mínima na estrada. Um tablet com mapas offline basta. Ou só o celular.
Mais de dois pares de sapatos: botas para andar, sandálias leves para as noites. Pronto. O resto é luxo sem retorno.
Equipamento de cozinha para tours longos em grupos organizados: desnecessário. Você vai comer o que o ambiente oferecer – e geralmente é melhor do que o que cozinharia você mesmo.
O livro que quer ler há dois anos: à noite você vai estar cansado demais. Um e-reader com dez livros carregados pesa o mesmo que um – e você vai precisar da opção de escolha.
Depois da primeira semana você vai descartar ou abandonar algo de qualquer jeito. Isso é normal. Faz parte da viagem.